Um
dos grandes objetivos da sétima arte é valorizar sua mensagem frente aos
dilemas da sociedade atual. Poucos filmes conseguem abordar temas impactantes e
condecorar futuras reflexões e discussões sobre o assunto. E quando entra em
questão o abuso sexual infantil, pouquíssimas produções retratam sua realidade
tão nua e crua quanto ‘O Conto’.
Baseado
nas tristes experiências pessoais da diretora Jennifer Fox, a trama acompanha
Jennifer (Laura Dern) revisitando e confrontando seus traumas de quarenta anos
atrás, após sua mãe descobrir sua história a respeito de seu relacionamento
especial com os dois treinadores adultos de um acampamento.
Não
estamos diante de uma obra fictícia, mas sim de uma triste realidade.
Contemplar o crescente evento narrativo e suas conseqüências geradas mesmo após
muitos anos provoca um misto de sentimentos ao espectador trazendo à tona uma
recensão de indignação e emoção. O valor temático é tão rico que não estamos
lidando apenas com o abuso, mas principalmente o disfarce da memória moldada a
nos fazer seguir adiante.
Não
obstante, a direção assinada por Jennifer Fox retrata com maestria todos os
diferentes tópicos de sua produção. Estamos diante de um olhar difícil, ríspido
e, infelizmente, factual sobre o abuso, o trauma, a cultura de diferentes época
(vide na sensacional cena em que Jenny e sua mãe discutem) e o poder da
memória. Nesse contexto, sua condução narrativa diverge entre o passado e
presente de forma sempre orgânica respondendo idilicamente as dúvidas/subconsciente
da protagonista.
Todos
os transgressores de seu abuso relatam suas versões, como se eles estivessem
sendo entrevistados. Versões estas passadas, porém cada vez mais intensas e
ganhando um grau de realismo crescente na memória de Jenny. E tecnicamente a
direção de Fox é certeira ao brincar com a contraposição imagética entre o
presente e passado, entregando cenas comoventes e criativas.

Já o
elenco, TODOS merecem destaques! Laura Dern, Elizabeth Debicki, Frances Conroy,
Ellen Burstyn, John Heard e Jason Ritter estão excelentes em seus respectivos
papeis. Com maiores destaques a Dern vivendo a conturbada, inquieta e perdida
Jennifer adulta. Ritter dispensa comentários ao entregar um personagem tão
humano, mas tão asqueroso e não duvido seu nome estar em grandes premiações. A
Burstyn mesmo com poucas cenas mostra-se o porquê é uma grande atriz.
Definitivamente,
o filme soube realçar cada valor de seu tema causando um misto de sentimentos a
cada um de nós, principalmente quando estamos de frente a uma história real e
não fictícia. Com cenas memoráveis,
angustiantes, atrozes, com uma mensagem poderosa e oportuna nos dias atuais, ‘O
Conto’ é necessário para todos.
NOTA: 9,3