O encontro da religião frente às
doutrinas filosóficas traz discussões complexas sobre o viver à base de razões
e contradições. A partir dessas intrínsecas questões, o cineasta Paul Schrader
imerge friamente na luta interna de um reverendo para trazer à tona os dilemas
da fé católica mediante a inquietude da transformada progressiva cultural, em
seu intricado ‘No Coração da Escuridão’.
A
trama acompanha o reverendo Toller (Ethan Hawke) em uma pequena congregação em
Nova Iorque lutando com o crescente desespero causado por tragédias,
preocupações mundanas e o seu atormentado passado.
O
diretor e roteirista Paul Schrader sempre foi um mestre na abordagem de estudo
de personagem e, aqui, não é diferente. Conhecido por roteirizar os excelentes
‘Taxi Driver’ e ‘Touro Indomável’, novamente Schrader embarca no mais íntimo
psicológico de seu personagem. Para assim, adentrar em temas complexos
confrontando a práxis católica, hoje, cada vez sendo esquecidas.
Nesse
contexto, Toller mergulha em um mar de angústias, desolação e ansiedade
atendendo aos embates dos princípios primários da fé católica. Conseqüentemente,
ele conecta-se ao lado da empatia humana reconhecendo ser um pecador, ciente
das preocupações mundanas e alarmantes no dia a dia. Dentre elas, o aquecimento
global, o capitalismo, o alcoolismo e ‘No Coração da Escuridão’ frisa essas
temáticas com os que dizem ser “cristãos” nos dias de hoje.

Outra
forma de representar o estado de espírito do reverendo está em sua
cinematografia. Como a privação de uma banda sonora extradiegética, uma
fotografia fria, nublada, isenta de cores saturadas e tons quentes. O cenário
ora em perfeita ordem quando a conexão e empatia ganham vitalidade, ora
bagunçado pelos dilemas enfrentados pelo padre (Ethan Hawke em uma atuação
introvertida).
Apesar de
arrastar certos eventos no segundo ato e sua conclusão não ser tão impactante
quanto à trama sugeria. ‘No Coração da Escuridão’ é um verdadeiro estudo de
personagem, consegue unir religião e niilismo e propõe reflexões importantes
sobre as questões morais do nosso ser e viver.
NOTA: 8,6
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