O
tema rape revenge sempre esteve
presente em inúmeras produções ao redor do mundo. Desde o lançamento do
controverso ‘A Vingança de Jennifer (1978)’ e futuramente remasterizado em
‘Doce Vingança (2010)’, o gênero reestruturou ao apresentar ao público uma
narrativa impactante, violenta e até mesmo difícil de assistir. De lá para cá,
poucos filmes se destacaram até a chegada do francês ‘Vingança’ agora sob a
visão de uma diretora mulher, Coralie Fargeat.
A
simples trama segue a mesma estrutura narrativa convencional do gênero. ‘Revenge’ (do original) acompanha
a chegada do empresário (Kevin Janssens) e de sua amante (Matilda Lutz) em um
deserto. Após a chegada de dois novos amigos do empresário, ela é abusada e
abandonada praticamente sem vida, porém decidida a vingar de todos aqueles
salafrários.
A
direção assinada da estreante Coralie Fargeat não busca inovar em sua
narrativa, mas impressiona na execução das cenas e dos detalhes. A começar pelo
primeiro ato irretocável. Logo de cara a cinematografia chama atenção ao
mesclar as cores rosa, amarelo e azul e, todas elas, significativas para
realçar o clima do ambiente e denotar os traços dos personagens. Não só isso, o
próprio figurino também utiliza as mesmas cores para reforçar a mensagem por
trás de cada um deles.
Como
exemplo, podemos notar a cor da camisa que a protagonista veste em cada ato do
filme. Se no começo ela utiliza o rosa para destacar sua sensualidade, o azul
transmite a mensagem de perigo ou ‘eu sou o próximo’ (como visto também em
outro personagem) e por fim o preto. Tudo é muito bem pensando, e até mesmo o
som diegético transitando para o não-diegetico, ou vice-versa, ajuda a compor o
clima de suspense.
Nesse
contexto, a cena do estupro é uma aula de cinema! A diretora Fargeat inicia com
um plano aberto (voyeurismo) e gradativamente diminui passando para o primeiro
plano, até ao plano detalhe. Nisso a trilha sonora rompe o silêncio surgindo a
partir de determinados sons diegéticos e, pouco a pouco, ganha força sobressaindo
sobre os demais sons; acentuando o senso de perigo. Aplausos para Fargeat.

A
diretora sabe tirar proveito da violência estilizada – à lá Tarantino, e
entrega cenas brutais e incômodas. Sua artimanha sempre está em utilizar
close-ups em cortes e feridas (aliás, a maquiagem é nota dez) para a angústia
do público, e entrega cenas inventivas como a sensacional sequência psicodélica
presenciada pela protagonista (na ótima atuação da belíssima atriz Matilda
Lutz).
Com atuações operantes dos personagens secundários e cenas difíceis de acreditar. ‘Vingança’ é chocante, angustiante, visceral, se destaca em seu gênero saturado nos dias atuais e coloca Coralie Fargeat nos holofotes das promissoras diretoras.
NOTA: 7,8