‘O Poço’ não poderia deixar de estrear no momento mais propício frente
ao caos do cenário mundial atual. Em meio a pandemia do COVID-19, o
longa-metragem espanhol lançado pela plataforma da Netflix surpreendeu a todos
ganhando escalas gigantescas ao redor do mundo, tornando-se o filme mais
comentado nos últimos dias. Afinal, sua verdadeira mensagem é o infeliz reflexo
da sociedade moderna.
A
trama acompanha Goreng (Ivan Massagué) confinado sob o mecanismo de uma
penitenciaria vertical em que os presidiários localizados nos pisos superiores
são beneficiados, pois recebem um banquete. Enquanto, os dos pisos inferiores
recebem os restos ou nada, restando a eles a luta pela sobrevivência.
O cineasta
espanhol Galder Gaztelu-Urrutia estreia com o pé direito atrás das câmeras ao mesclar
o suspense social e a fabula kafkiana diante da natureza humana frente a um
sistema corrompido. Sua direção prova como tornar uma obra eficiente mesmo
tendo em mãos uma proposta geral simples, beneficiando-se da plataforma como o
elemento condutor para as metáforas. Dessa maneira, a ótima premissa é
desenvolvida com tamanha precisão no primeiro ato favorecendo a imersão do
espectador, a partir dos questionamentos entre Goreng e Trimagasi (Zorion
Eguileor) .

Porém,
o cerne do filme está em seu roteiro alegórico com personagens complexos e
temas coniventes com a sociedade moderna. A narrativa moldada no capitalismo
desenfreado, no egoísmo, no individualismo, sob o pensar no seu próprio bem
estar e o outro que lute contra a solidariedade, a consciência coletiva, a
inocência e a esperança. Em meio a essas asserções as metáforas são bem
inseridas gerando diferentes interpretações.
Com
uma trama rica em metáforas e com fortes críticas sociais, ‘O Poço’ é um
daqueles filmes que vai ficar em nossas mentes após o final dos créditos e se
insere em um momento chave no contexto atual nos fazendo refletir sob nossas
atitudes.
NOTA: 8,0
SPOILER
Diante
de várias metáforas, as críticas sociais sobre o capitalismo, socialismo, desigualdade,
luta de classe, consumismo e o comportamento humano tange apenas as mensagens
explícitas. Sabendo que ‘O Poço’ vai muito além disso. Há muitas referências a
serem percebidas, entre elas estão os elementos bíblicos citados ao longo do
filme.
Sendo
assim, a plataforma é uma forte alegoria a Torre de Babel distanciando o céu do
inferno entre 333 andares (2 pessoas em cada cela), ou seja 666 homens no
total. O personagem Goreng é retratado
como o próprio Messias. A Imoguiri representa a empatia e Baharat a fé chinesa.
Enquanto isso, a alta administração são os regentes desse sistema capitalista.
A
jornada de Goreng é justamente sacrificar por todos e mostrar a esperança, a
fim de romper o sistema. Durante esse processo ao lado de Baharat, contemplamos
os sete pecados capitais. A soberba (o homem de cabelo grisalho mencionando ser
merecedor de estar no piso superior), a ira (os responsáveis pela morte de
Miharu), a luxúria (dois sujeitos pelados na piscina), a preguiça (a mulher com
travesseiro), a gula (o garoto com síndrome de down), a ganância (o velho que estava
com o dinheiro) e a vaidade (o rapaz detentor de um violino).
Quando
ambos chegam ao fundo do poço, nenhum dos personagens conseguem sobreviver. A
visão de Goreng ao encontrar uma criança em ótimo estado no último piso não
passa de seu subconsciente, pois a enxergava como a esperança, a inocência e o
futuro da humanidade. Por fim, o filme termina com a criança sendo levada aos céus,
ou melhor, a verdadeira mensagem sendo entregue ao público para fora do poço. Ou
seja, cabe a nós espectadores decifrarmos se este recado será efetivo ou não em
nosso espirito moral.